Aquela história sobre a Valentina…

abril 10, 2015

*Por Nathália DePaulla, que disse que nem ia contar esse caso.

Esse conto será longo. E louco. Mas que conto não é assim? Certeza que não vai ser como o que já escrevi por aqui antes, mas será o mais bacana… Pela protagonista, pela insistência da protagonista, pela audácia da protagonista e pela paixão que ela roubou de todo mundo que já não vê a hora e ver a carinha bochechuda dela. Não, dessa vez a protagonista não sou eu, mas a Valentina, que em 30 dias deixará de me chutar aqui dentro para chutar -carinhosamente- todo mundo do lado de fora.

Ninguém é tão inocente para não saber como ela foi feita, claro que foi a cegonha, gente. Mas… Há muito eu e o pai dela guardamos o segredo de onde ela veio. Dos sonhos. Literalmente. Tudo começou naquela semana de mudança, casa nova, vida nova. Eu realmente gostei muito daquela casa, a luz do sol entrava por todas as janelas, era espaçosa, em tons de cinza e branco e com a impressão de que me faria feliz. Me mudei. Me joguei no quarto da frente que tinha janela grande e uma parede de vidro…. Adoro vidro.

Como que por milagre minha roomate gostou do quarto dos fundos, aquele que ficava lá no fundo do corredor. Aquele que eu não gostei, aquele que eu sentia frio quando entrava. Mas e daí, nem era meu… Queria decorar e deixar genial o quarto do início do corredor, meu cantinho. Entre uma partida de carteado e outra com cerveja gelada, cada uma ia montando o canto do jeito que queria. Meu quarto era preto e branco. Tudo preto e branco. Tudo bem flamenco, bem “lunares”, bem cheio-de-fotos-de-Ballet-e-Flamenco-pela-parede. O outro quarto muito colorido… Lenços, fotos, flores de papel, umas artesanias aqui e alí e… frio. Eu ainda sentia frio ao chegar lá.

Não tem problema, faríamos as bebedeiras e carteados de pijamas idiotas jogadas na minha cama. E assim foi.

Corria tudo bem, tudo muito calmo até o dia do sonho. Não lembrava se estava sóbria ou não antes de dormir naquela noite e por isso nem deveria ter levado o sonho a sério, mas como não levar a sério o sonho com a sua filha? Como ignorar o aviso de que ela estava chegando? Como deixar de lado aquela carinha linda invadindo a minha casa no meio da noite? Ok, você quer muito que eu conte o sonho, certo? Lá vai…

…Eu estava na sala. O porque eu não sei. Aquela sala ainda nem tinha um sofá, um tapete, era um salão vazio a espera de uma decoração. Mas tinha a Valentina, digo, tinha a Maria. No sonho, eu entrava na sala e logo tomava um susto porque a menina branquinha de cabelos pretos estava lá, falando, falando e falando.

– Ai, que susto! Inferno! Será que eu não posso chegar em casa sem baru… Espera, quem diabos é você?

– Maria.

– Ótimo, o que você faz aqui?

– Eu moro aqui.

– Vaza. EU moro aqui. Enquanto você não pagar aluguel, você não mora aqui.

– Moro sim! Quer dizer… Eu morava. Mas eu morri. Mas aí eu te trouxe pra cá… E você vai ser a minha mãe.

Eu deveria ter despertado aí. Morrendo de medo, suada, ofegando, entre um milhão de flashes loucos e sem sentido, mas como minha vida não é um capítulo de seriado barato eu continuei o resto da noite entre sustos e diálogos sinceros com uma menininha de sete anos que era mais dona da casa que eu. Ao despertar eu não lembrava de nada, só que estava 20 minutos atrasada e agora era melhor pensar naquela desculpa pra chegar tarde no trabalho sem avisar antes. Mas nem a chegada tarde me impediria de aquela conversa diária de Skype.

– Oi, uni.

– Oi, uni!

– Como você tá?

– Bem… E você?

– Cansaaaaada! Dormi mal. Parece que corri uma maratona com crianças.

– Viu o que saiu da Madonna?

– Espera. Eu realmente passei a noite com uma criança.

– Você anda pegando gente mais nova?

– Que nojo, Cinthia. Claro que não. Eu SONHEI que passava a noite inteira tentando conter uma menininha branquinha de sete anos que se chamava MARIA. Igual a qualquer criança, se ela estivesse viva e não fosse a futura reencarnação da minha filha.

– Até você terminar de explicar, eu posso ter um aneurisma.

Obviamente a conversa foi do mais improvável possível até o limite da sanidade. Expliquei para a amiga, também bruxa, o ocorrido e pronto. Na cabeça dela, a caçada pelo nascimento da Maria estava aberta e valendo… Se a guria resolveu dar as caras, porque ignorar?

Foram dias, noites, semanas pensando em tudo aquilo. Quem era Maria e porque ela vinha falar comigo? Porque eu não tinha medo dela ser uma criança morta em um sonho meu? E porque raios ela me chamava de mãe? Vários sonhos permearem minhas noites depois desse primeiro… E a cada diálogo eu me via na Maria e podia ver um pouco dela em mim.

– Eu não te disse que não era para voltar?

– Mas eu moro aqui!

– Ok, Maria, sem chiliques. E onde você fica?

– No quarto.

– São três… Qual deles, Maria?

– No dos fundos. No final do corredor. Aliás, eu não gosto daquela moça chata que vive lá, eu quero que ela vá embora.

– Mas se ela for, como eu pago o aluguel sozinha? Você é louca, Maria. E para de pular! Que coisa mais chata!

– O papai paga… Ele é legal.

– Você não tem pai. E eu não sou sua mãe. A gente já conversou sobre isso.

No sonho Maria deixa de pular. Me olha com olhos  que lacrimejam uma dorzinha de criança que partiu meu coração sonolento em 50.

– Mas… Eu… Queria que você fosse a minha mãe. Queria muito.

– Maria! Não chora… Eu não po… Ok, eu posso. Não chora!!! Ok, ok… Eu sou sua mãe, tá?

Nesse momento eu virei mãe de uma fantasminha que tinha o mesmo nome que minha mãe. Graças aos Deuses eu nunca contei isso para ninguém até agora, ou estaria por parir em um sanatório. Quem acreditaria em tamanha alucinação? Jovem, fã de cerveja, pessoa que troca o dia pela noite, que é bruxa… “Interna! Essa daí não tem jeito.”

Os dias seguiam e eu já dava bom dia, boa tarde e boa noite para uma Maria que vivia nos meus sonhos. Entrar no quarto do fundo do corredor, jamais. Escrevia para minha roomate pelo whats app, mas não ia. Quando ia, ficava na porta. Deuses me livrem de passar frio lá! Sem contar, que… Era o quarto da Maria. Só ela deveria ficar lá.

Capítulo 2 – O Papai

Ah, eu não comentei dele ainda? Então… Ele era alguém com quem eu “saia” há tempos (sim, eu acho brega qualquer rótulo). Só vou dizer que ele é lindo e que eu amo, porque sei que quando ler o conto, o ego pode sair pela janela e eu nunca mais recuperar a fama de durona que tenho com ele. Pois bem, era ele… Depois de perder uma aposta, sete consecutivas na verdade, me sobrava cozinhar. Qual é o problema dos homens que descobrem que cozinho bem? Me pergunto por que sempre me cobram comida… Não é legal cozinhar de saltos altos e mais bem maquiada que uma Angel da Victória’s Secret para impressionar. Gosto de cozinhar descalça, sem make e dançando Madonna pela casa. A colher de pau ora é microfone, ora é colher… E no final eu sempre ganho um Grammy. Enfim, só dá pra fazer isso sozinha.

Mas eu perdi a aposta. E perdendo eu só podia mesmo cozinhar o jantar como prometido. Já passava da meia noite quando ao entrar no quarto, o quarto frio era o meu. Muito frio. Que má sorte ter um quarto gelado justo na primeira vez que vocês trocam o apartamento dele pela sua casa. Mas não faz mal, tinha bastante vinho ainda…

Teoricamente estava muito cansada para sonhar. Mas quem sou eu para decidir quando a Maria deve aparecer ou não? Acordei entre 3:30h e 4:00 para tomar água e acabei tomando vinho direto da garrafa, aquele mesmo vinho que adormeceu na mesinha de cabeceira. “Boa tentativa, galera. Mas nem morta eu saio debaixo desse edredom entre 3 e 4 da madrugada.”, pensei sozinha enquanto me aninhava de novo naquele abraço. Quem é bruxinha sabe que nesses 60 minutos da madrugada muita coisa acontece… e ninguém aqui tá ficando mais corajoso para pagar pra ver. Dormi.

Sonhei com a Maria na minha sala de novo. Mas dessa vez estávamos tão felizes que esquecemos de brigar uma com a outra. Havia gente… Mais gente. Não sei se era uma festa ou se eram visitas. Maria corria de calça jeans e blusinha branca para todos os lados. Blusa essa tão branca quanto o tom de pele dela… Nem lembro se conhecia todo mundo que estava alí, mas do outro lado da sala eu sentia a presença dele. A gente não se falou, mas ele estava alí. Só que eu estava muito ocupada tentando fazer a Maria parar de correr…

Acordamos no mesmo momento. Aquele cuidado pelo bafo matinal, claro, mas ainda assim bem perto, falando bem baixinho. Foi o momento que eu mais quis estar bêbada em toda a minha vida.

– Bom dia…

– Bom dia…

– Dormiu bem?

– Sim, e você?

– Também… Só tive um sonho estranho.

– Eu também, mas o meu é recorrente. Já tô acostumada.

– Mas… Foi esquisito mesmo. Sonhei que estava aqui, na sua sala, e uma menininha branquinha de mais ou menos sete ou oito anos estava presente.

– Ah… Não se assuste. É a Maria. Ela diz ser minha filha, mora aqui e tá sempre em algum sonho torto meu.

Claro que a sanidade deveria ter me impedido de falar isso como um tiro de escopeta bem na testa do sujeito. Mas o retardamento mental matinal, não permitiu.

– Que?

– Ahn… Maria. Ela me chama de mãe, sei lá, longa história… Ainda tenho sono. Será que tô meio bêbada?

– E porque ela me chamava de pai???

– Porque ela me disse que ia arrumar um pai.

Vômito mental e verbal de novo. Porque a gente não consegue calar a boca nos momentos que mais se precisa? Agora, além de descabelada eu aparentava ser louca. Quem ia querer sair com tutora de criança morta? Não lembro como essa conversa terminou, mas lembro que aquela manhã de sábado ficou conhecida como o despertar mais bizarro da história. O sol, lindo. A credibilidade daquela manhã, nebulosa.

Capítulo 3 – Aquele dia

13 de Agosto. Lá vou eu cozinhar de novo! Essa vida de perder apostas estava me falindo a criatividade. Mas tudo bem, o ritual seria o mesmo… Jantar, vinho, risadas, boa conversa e no final da madrugada alguma visita da Maria. Mas a visita seria só para mim, já que na primeira aparição para ele a monstrinha já causou contando todo o barraco e chamando o coitado de “papai”. Aliás, ele havia esquecido a história, eu nunca poderia esquecer pois a Maria não deixava. Bichinha insistente, quem será que ela puxou?

Enfim, nessa noite a gente discutiu. Muito. Não lembro o motivo (mentira, eu lembro e numa briga lá pra 2048 eu ainda vou lembrar, jogar na cara e fazer escândalo sobre isso. Porque sou mulher.). Na realidade foi a personalização da frase “Entre Tapas e Beijos”… Foi impossível esquecer essa noite. Fiquei muito irritada, mas sou idiota e a raiva passa com um beijo no pescoço. Pelo visto passa pra ele também.

Nessa noite eu não sonhei com a Maria. Achei que ela tivesse ficado com medo de aparecer no meio de uma briga… Menina esperta, ficou quietinha. Em briga de não-marido e não-mulher, não se mete a colher.

Capítulo 4 – O Festival de Cabo Frio

E daí que eu ganhei dois prêmios nesse festival? E daí que eu dancei bem pra caramba? Colocar aquele biquini todos os dias estava cometendo um homicídio contra a minha paciência. Que mau humor, que ódio, que carência… Tudo por causa do maldito biquini. Porque se eu não estou magra, eu não tenho paciência pro mundo.

– Tô gorda.

– Nathye, para com isso. Você só tá… quadrada.

– Ah, pelo amor dos Deuses! Gorda. Me deixa.

– O que a gente fez?

– Nada. Só me deixa.

– Você tá chorando, Nathye?

– Não! Sim! Ah, o que te importa???

E assim eu arruinei a minha viagem para Cabo Frio. Mas ganhei dois prêmios.

Capítulo 5 – Eu vou morrer

Tudo doía. Eu estava tão doente que inchava a cada respirar. Só vestidos, porque minhas calças… Jamais. Dormir das 17h às 09h do outro dia também não me ajudava muito, eu fiquei cada vez mais improdutiva e cada vez mais sensível e mau humorada… E depois eu chorava. E descontava tudo na melhor amiga.

– Eu vou morrer.

– Não vai não, você tá grávida! …Mas pode ser câncer, sempre pense em câncer.

– É SÉRIO, CINTHIA… EU VOU MORRER.

– Quais são os sintomas?

– São esses desse link que eu vou te mandar…

– Você tá grávida, hermana.

– Não, eu tô com câncer. Cuida das minhas cachorras.

– Tá, eu cuido. Mas você tá grávida.

Era sábado quando eu passei mal a ponto de pensar que ia desmaiar. Aliás, eu quase desmaiei. Sabe aquela sensação de que o mundo tirou de circulação seu ar, sua força e sua capacidade de pegar o celular para mandar uma mensagem pedindo help? Então, não foi nesse momento. Isso aconteceu depois que eu avisei as minhas irmãs e a minha amiga de Córdoba que estava indo na emergência cuidar desse câncer, digo dos sintomas. Fui pensando no meu testamento, claro.

– Quais são os sintomas, senhora?

– Todos esses que estão nessa folhinha pendurada na parede.

– Ahn… A senhora sabe que aqui é o pronto socorro da MATERNIDADE, certo?

– Sim. Bom, minha amiga é estudante de medicina e me disse pra vir aqui. Eu vim.

– Ok. Acho que sua amiga estava tentando te dizer algo.

– Ela fala pelos cotovelos, ela seria direta.

– …

– Eu vou morrer, doutora?

– Não. Mas amanhã, mesmo sendo domingo, venha em jejum para um exame de sangue e traga a sua urina.

– Droga. Deve ser Leucemia.

– A senhora tá lembrada que eu falei que aqui é a MATERNIDADE, certo?

– E daí? É CÂNCER.

Capítulo… Perdi a conta. – A noite antes do exame

Eu não queria ficar sozinha. Mas também não admitia que não queria ficar sozinha. Nessas horas você sempre escreve para alguém pelo whats app, um amigo, um familiar, um alguém… Eu escrevi para ele.

– Você conseguiu. Acabei indo no médico.

– O que houve?

– Sei lá, me senti mal e pensei que fosse morrer.

– O que te disseram?

– Faço exames amanhã.

– Eu vou com você.

– Não vai.

– Vou sim.

– Tá bom, você insistiu muito. Você vai.

– Como você se sente agora?

– Menos pior. Não posso dormir sozinha hoje. Recomendação médica.

– Eu vou dormir com você.

– Não precisa…

– Precisa sim.

– Ok, insistiu muito de novo. Te espero. Em 30 minutos. Tipo… 15. Mas se você puder chegar em 10… Ok, parei.

Essa noite foi a mais longa da minha vida. Demorei tanto para dormir que me senti perdida quando acordei. Não sabia que horas eram, se tinha perdido o exame, se era real… O que ele fazia alí mesmo? Ah sim, ele tinha ido cuidar de mim.

Own!

Último capítulo – Prometo que é o último, sério!

O caminho para o hospital demorou umas 48 horas. Na verdade, uns 10 minutos mas quem sou eu para ter serenidade nesses momentos? O tempo todo eu tinha aqueles olhos arregalados de medo e ouvia dele que “tudo ia ficar bem”. Ele dirigia, segurava a minha mão e dava pra notar o quanto ele realmente se preocupava comigo. O problema foi quando a mocinha do laboratório, prestes a me assassinar com uma agulha e retirar 150 litros do meu pouco sangue disse “Prontinho! Em 30 minutinhos vocês saberão se é positivo ou negativo!”

– Positivo pra que? CÂNCER???

– Perdão, senhora?

Depois disso ela me pediu para esperar no corredor. Hoje entendo o por que…

Ficamos alí, perdidos. Puxando assuntos sem noção até o envelopinho chegar. Quando chegou, saí correndo igual a uma desesperada para ler no estacionamento. Sozinha. Estavam fazendo um teste de gravidez em mim, mas eu ainda achava impossível estar grávida. Óbvio que eu estava no leito de morte, sofrendo de uma patologia horríiiivel e sofrida.

– Viu, linda? Você não está grávida.

– Sim, estou.

– Não está.

– Sim… Estou.

E estava lá, em caps lock. POSITIVO.

Maria. Aquela mini filha da puta. Digo, minha filha. Não sonhava com ela desde Agosto e em Outubro ela volta causando e derrubando tudo igual um furacão e, certamente, rindo da nossa cara. Aliás… Que caras. Dois idiotas de olhos arregalados sem saber o que dizer um pro outro. E foi assim pelas próximas duas horas seguidas.

– O sonho!!!

– Sim, o sonho!!!

E foi assim que descobrimos que seríamos pais. E foi assim que surgiu a Valentina… Que por pouco não foi Maria. Que quaaase foi Maria Valentina. Que estará conosco em exatos 30 dias pra completar a nossa família… Se ela não causar e nascer antes, claro.

Ah… Perguntamos pro médico a data provável em que eu fiquei grávida. Ele disse “Entre 10 e 15 de Agosto”.

Curioso, não?

Fim. 

Seja bem vinda, Valentina DePaulla Wüst.

Seja bem vinda, Valentina DePaulla Wüst.

P.S.: Numa próxima vez eu conto como está sendo sonhar desde o início da gravidez que a Valentina tem dois anos e nós estamos esperando gêmeos. Segura essa, amor!


Aos 27…

março 28, 2014

Por Nathália DePaulla.

Para mim, continuo tendo 25. Morrerei tendo 25. É um número bacana, que eu curto, que me deixa contente e satisfaz o meu TOC de gostar de 5, 10, 15, 20 e… 25. Mas hoje despertei antes dos primeiros raios de sol com 27 e nunca me flagrei em tantos risos em toda a minha vida! Entre um espreguiçar e outro, lembrei sem querer dos outros poucos 26 anos e, por mais que tentasse recordar das merdas das pedras que caíram diretamente na minha cabeça, entrei em um estado de meditação onde só conseguia visualizar as imagens mais lindas, que jamais passariam aos meus olhos a menos que eu tomasse um cházinho de Anis Estrelado.

Ria escandalosamente das pessoas que entraram em minha vida da forma mais bizarra possível! Das que entraram sem meu consentimento, eu fiz de tudo para que ficassem de fora e de palhaçada elas me agarraram em um mar de amor até eu aceitar. Lembrei das que eu bati o pé e disse “Você vai ser meu amigo sim, seu cretino!!!” e só sosseguei quando consegui convencer de que sou só 90% malvada e que ele poderia aproveitar os 10% restantes sem medo… Lembrei de todo mundo, até dos que eu não lembro como apareceram e estão aí até hoje. Amigos. Como me sinto bem sabendo que tenho os melhores, que largaria um amor por um amigo fácil, fácil… Veio cada cena, cada lembrança que era impossível sair da cama, fugir dessa meditação.

Eu consegui lembrar da risada de cada um dos meus amigos… E fiquei feliz por fazer parte da risada de todos eles em algum momento.

Passada a hora das pessoas importantes, vieram as pessoas vitais. As imortais dentro do meu peito que atuam como a luz do sol e da lua diariamente para mim. Coincidentemente a luz do sol insistiu em entrar pela parte do vidro da janela que eu quebrei SEM QUERER, brincando de atirar um sapato na minha amiga, mas ok. Entendi como um sinal… Como um “bom dia”. Eu conhecia aquelas pessoas que agora vinham, conhecia mais que bem, conhecia por inteiro. Que onda de amor perfeita invadiu a minha meditação…

Comecei a assistir cenas com a Marcela… Todas! Os melhores momentos e as pancadarias também. Ela me ensinando a ler e correndo atrás de mim pela casa reclamando que eu baguncei alguma coisa. Me delatando pra mamãe que eu fiz bagunça na missa! Caminhei ao lado dela vendo-a me levar para o cinema, indo me buscar na escola todo santo dia e me comprando jujubas. Ri de como eu sou chata obrigando-a alugar sempre o mesmo filme para que eu visse até enjoar… De como é engraçado quando eu a agarro, falo que amo e ela diz “Aaaargth, tá bom, tá boooom! Vi que eu tenho que amar a maninha mais que infinitamente.

Vi cenas com a Bebel, eu sabia que ela também viria… Vi as cenas mais amorosas e também as que eu rachei a cara dela de vergonha. Quando eu chegava toda estrupiada ao trabalho dela de tanto brincar no parquinho e ela tinha que me esconder porque eu falava muito alto e tinha o cabelo incompreensível. De todas as vezes que disse “Mas eu quero!” e ela teve que comprar porque o escândalo era maior… De cantar alto no carro! Lembrei de quando o meu abraço foi o primeiro depois do acidente…De todos os barracos dramáticos, dos presentes que eu guardo até hoje. De todas as vezes que ela me contou que se apaixonou por mim quando viu meus ‘olhinhos-enormes’ como duas jabuticabas chegando do hospital. Vi que ela é minha metade, que eu também tenho que amar infinitamente.

Impossível contar quantas cenas eu vi com essas duas. Seria possível que minha vida seja toda relacionada a essa união? Claro que é, que pergunta tola, quem nunca soube disso?

Ah, Vi o Pedro nascer de novo! Assisti aquela carinha emburrada super brava por ter que tomar o primeiro banho, gargalhei quando lembrei que troquei a primeira fralda… SUJA. Tomei ciência de que em algum momento serei uma tia velha que vai contar essa história na roda de amigos e envergonhar o sobrinho. Senti meu braço doendo de tanto ficar com ele no colo por não querer que ninguém mais pegasse o meu “príncipe puiuiú”, da primeira vez que ele me sorriu. Da primeira vez que ele entendeu o que era “abraço”. Lembrei de todas as vezes que ele diz “Oi, titia Nathália!” e eu me desintegro em um choro incontrolável, morta de saudade… Assisti as cenas de quando ele canta pra mim, de como diz que me ama e de como meu dia muda só de ver uma foto dele no celular. Lembrei de como eu me apaixonei quando vi os olhos dele.

Senti que a cama foi ficando mais gostosa, mais quentinha! Era o abraço da minha mãe, certeza… Vários flashes, vários momentos. A briga por me fazer cachos quando eu sempre gostei de cabelos lisos ou levemente ondulados. As roupas malucas que eu imaginava e ela fazia… Ela me chamando de “Princesa”, de “Neguinha”, dizendo que tenho as pernas mais lindas do mundo inteiro… Da cara de orgulhosa dela na minha formatura do pré quando eu li a minha parte melhor que todo mundo. Vi um por um, meus vestidos de quadrilha. Não era a tôa que eu sempre chamava atenção, eram os mais bem feitos e lindos do mundo. Lembrei de como ela contava para os conhecidos das minhas 9 medalhas de melhor aluna com melhores notas e TAMBÉM das 5.000 advertências de pior comportamento que eu assinava todos os dias. De como ela entendia que eu não podia ser perfeita, mas assim mesmo ela achava que eu era. Lembrei da mamãe dizendo que me amava mais que tudo e também da última vez que falei com ela. Tão real que é impossível colocar em palavras. Lembrei até das cervejas que a gente tomava escondido dia de semana, em horário comercial.

Fiquei por minutos mentalizando esses momentos, essas pessoas. Fiquei agradecendo cada segundo… Fiquei anotando mentalmente cada um deles também porque no meu níver de 100 anos eu quero lembrar dos mesmos! Ah, e eu vou dizer que tenho 25.

Lembrei das pessoas que foram embora… Por vontade própria ou porque eu mandei. Agradeci! As que foram porque foram abriram portas para pessoas melhores e as que eu mandei, quem sabe um dia eu não as chame de volta? Me vi em vários momentos com essas pessoas e por incrível que pareça, TODAS me deram momentos bons e ruins. E todos foram necessários para tudo que eu aprendi, plantei e colho da minha roda do ano agora. Perdoei uns, briguei mentalmente com outros e teve uma galerinha que eu mandei pra lista do “foda-se”. É… O foda-se, aquela lista para onde você manda chefes, motoristas de táxis chatos e sogras. Que fiquem lá!

Ri de mim! Dos meus momentos idiotas, das minhas viagens mentais sobre coisas absurdas, da minha vontade de criar um milhão de coisas e da minha preguiça em executar no minuto seguinte. Vi toda a minha vida passando e me senti 20% ridícula, 20% certa e 60% feliz! Consegui ver meus erros, meus acertos e tudo ainda que está guardado para o momento certo, quando eu puder dizer “Viu, sua anta, eu tinha razão!” Agradeci pelo conhecimento que tem invadido a alma nesses últimos meses e me livrado de um monte de coisas… E pela insistência mimada de dizer “Mas eu quero!!!” que nunca me deixa desistir de nada também. Ri por voltar a estudar bruxaria e por conseguir fazer uma mini merda em cada ritual, como colocar fogo na toalha de mesa ou trocar o nome de um dos deuses. Agradeci por entender cada coisa que me acontece por esse meio. Impossível citar tudo de mim que vi? Sim.

Ah! Agradeci ao meu anjo da guarda por estar viva, afinal, juízo eu não tenho nenhum. Fiquei pensando que de onde estiver, minha mãe comenta diariamente “Sua louca, sai daí!” ou então “Se suas irmãs descobrem…!”, coisas do gênero, coisas de mãe. Mas ela entende meu jeito perigoso de ser feliz. Ou quando me visto de Madonna. Ou quando saio de pijamas na rua. Ou quando acordo e digo “Amiga, não lembro de ontem, me atualiza?”. Enfim, eu sei que no fundo ela morre de rir.

Consegui ver tanta coisa, consegui lembrar de tantos momentos… E aí, cautelosamente, eu fiz a pergunta que ninguém quer fazer com medo da resposta. Eu sou feliz? E antes mesmo de responder todos esses flashes ameaçaram passar de novo diante dos olhos.

Não precisei responder.

Fiquei com uma vontade incontrolável de agradecer ainda mais. De usar o lado livre pra levantar e dançar de pijama pela casa comemorando sozinha esse meu início de ano. Percebi o quanto sou feliz, o quanto eu ganhei nesses sei lá quantos anos… Percebi que alguns personagens da história que me tentaram fazer mal perdem de goleada para o tanto de amor incondicional que eu tenho da minha família e dos meus amigos. Ri deles sem querer, mesmo sabendo que é um pecado diante do universo. Me imaginei com muito mais Ballet, muito mais Flamenco, muito mais música. Ainda mais! Percebi que a vida recomeça a cada 28 de Março com uma chuva de possibilidades. Gritei de felicidade pelo meu dia.

Cheguei a conclusão de que se meditar assim ao menos uma vez por ano, terei eternamente 25.

"Come join the party, it's a Celebration!" - 28 de Fevereiro de 2014, porque aqui as festas começam um mês antes!

“Come join the party, it’s a Celebration!” – 28 de Fevereiro de 2014, porque aqui as festas começam um mês antes!


Apenas respire…

março 21, 2012

Por Nathália DePaulla.

Para começar, só escreva quando puder contar segredos. Não crie contos, não invente, apenas relate o melhor ou pior de si, do contrário, faça um hiatus e reserve-se a observar tudo aquilo sobre o que não pode escrever. Quem sabe um dia não é descoberto como contar? Perca-se nos dias, indo e voltando dentro do seu próprio mundo, visitando o mundo dos outros por um pouquinho e correndo de volta para o seu assim que necessário.

Tirar férias de você mesmo também é necessário… Olhe fotos antigas, volte pra casa onde cresceu, reviva todas as estripulias já feitas e envergonhe-se delas, mas envergonhe-se de forma bonita, de forma leve, diga a sai mesmo que não acredita que um dia já fez aquilo como pintar o cabelo de rosa e chegar na escola mais tradicional da cidade. Reveja as fotos de criança, compartilhe lembranças, sinta-se feliz sentada confortavelmente dentro de você.

Perca o medo também! Perca o medo de encarar aquele probleminha que deixou para trás, perca o medo de fazer o que está fora dos planos, perca o medo de ter medo! As vezes essa reciclagem aparece depois de um tempo de recolhimento, uma pausa em tudo aquilo que você é. Passada a reciclagem, assuma o seu lado mau humorado e anti social, assuma o lado de bravo, mimado e chiliquento… Assuma com a mesma vontade que assume tudo aquilo que dizem de bom de você. Não importa o resultado, apenas assuma.

Que sejamos todos bobos também. Pode ficar feliz com aquele e-mail que só faz sentido para você, derreta-se com o telefonema mais meloso possível. Acalme-se com os beijinhos de criança da família, faça planos… Sorria sem motivo pensando em algo do gênero e passe por bobo sorrindo pro nada. No fundo você vai saber que não é por nada. Fale “eu te amo” sem motivo nenhum, seja irracional nos seus sentimentos. Fique leve, ame bastante… Digira tudo aquilo que não pode contar por tempos em pequenas histórias subjetivas que vão fazer sentido em qualquer lugar do mundo. Ame mais um pouquinho.

Agradeça, sempre. Agradeça em voz alta, como um mantra. Pense em todos que ama e olhe de novo para trás, olhe para os últimos meses. Descubra de forma deliciosa quem você era e quem você é… Nunca perca a fé, e, encare bravamente  quem você vai ser nos próximos tempos.

Lembre-se de perder o medo. Apenas respire….

Momento de respiração... Captado pela Gi Faustini.


Baile sem máscaras…

fevereiro 22, 2012

Claro que viajar na sexta feira de carnaval é roubada, por isso lá fomos nós pegar a estrada depois da três da tarde para não dar de cara com o pessoal que pretendia o mesmo caminho depois das 18h. Carro gelado por conta do calor que relembra a ante sala do inferno, Adele mandando ver nos melhores agudos e pés descalços porque afinal era carnaval e ninguém se preocupa em viajar de havaianas até São Paulo. A passagem para Santos já estava comprada, pois fiquei sabendo que Paulista pobre só tem Santos para curtir o carnaval e perder a ida ao porto seria o começo de todos os meus escândalos até dezembro.

Chuva! O carro deixa de andar acima de 120Km/h e passa a andar a 80Km/h. Ok, vai dar tempo de ouvir Adele e mais alguma coisa. Entrando em São Paulo, o carro não passa de 20Km/h… Ok, todo mundo teve a mesma idéia e acabou dando balão no emprego para viajar mais cedo e não pegar congestionamento. Como tudo acontece nas horas erradas, claro que deu vontade de ir ao banheiro. Mas como ir ao banheiro no meio da Marginal? Para de sacudir com a música, cruza as pernas, pensa que logo logo você vai ver a tia Tatinha e os bebês, vulgo tsunami e tornadinho, e NÃO PENSA no barulho da chuva. Mas como???

Ok, de Campinas a São Paulo uma hora e alguma coisa, da entrada de Sampa até a casa da Tia Tatinha, 2 horas! Depois da corrida, um lanchinho, uma farrinha com os primos e já era hora de ir para o metrô. Tio Pepa de motorista e tudo tranqüilo, conversa de música, “causos” sobre tocar em bateria remendada, etc, e em minutos estávamos na entrada pela avenida Sumaré. O tio me desejou boa viagem, relembrou que era para ter cuidado e eu agradeci dizendo o famoso “Pode deixar, vai ficar tudo tranqüilo.” Afinal, o que poderia dar errado em uma descidinha para Santos?

Porta do metrô. 19 pessoas passaram por mim correndo, gritando e empurrando todo mundo porque estavam atrasados. Um distinto senhor carregando um enorme fogão de acampamento veio logo em seguida esbarrado em mim e me fazendo girar 180° no meu próprio eixo pela gentil pancada. “Ok, cadê o tio Pepa???” Olhos arregalados, segura a bolsa mais forte e desce dois lances de escada para comprar bilhetes.

“Tietê, por favor…”

Até o Tietê foi tranqüilo. Só um bêbado, um bebê possuído pelo demônio que puxou meu cabelo quatro vezes e um grupo de adolescentes farofeiros que iam para algum lugar da praia “pegar geral e ouvir Michel Teló.” Será que ainda dá tempo de ligar pra Tia Tatinha e pedir socorro? Não, eu tinha que ir, então… Era sentar no banquinho marrom e esperar aquela voz anasalada me indicar a hora de descer.

Chegando ao Tietê, a doce ilusão de que era só entrar no ônibus e ouvir mais Adele até Santos foi desmoronando assim que coloquei os pés no terminal rodoviário. “Boa noite, sejam bem vindos ao carnametrô. Mais cheio que o sambódromo, com mais gente esquisita que bloco de rua e mais perigoso que fazer compras na Rocinha. Maldito dia pra estar de vestido. Mas claro que eu só fui perceber isso depois de cinco ou seis frases nada elegantes e juro que fiquei intrigada com a frase “olha o touro” que ouvi quando passei pela catraca. Claro, além de estar de vestido ele tinha que ser vermelho. Vermelho sangue! Foi a cantada mais esdrúxula que já ouvi em toda a minha existência mas tudo bem, é carnaval. Todas as cabeças de camarão estão na rua, agüenta…

Corri para o Guichê certo e depois de uma fila de 10 minutos eu fico sabendo da fatídica notícia: “Com todos os ônibus extras que colocamos aqui o embarque foi transferido para o Jabaquara”. Mentira que eu tinha feito o dobro do caminho até o Tietê e agora teria que voltar metade do trajeto. Agora sim o relógio ria da minha cara, eu tinha 40 minutos. Desce a escada, segura o vestido, não tropeça em ninguém e chega na catraca rumo ao Jabaquara.

“Merda, eu preciso de outro bilhete!”

Volta pelas escadas, desiste de segurar o vestido, adjetiva nada educadamente quem fala besteiras e chega na ponta da fila… que tinha uns 50 metros. Esperando na fila cada passo era como pular um obstáculo na corrida das olimpíadas. Droga de educação e cidadania que não me permite furar filas! Culpa da mamãe, ela podia ter me ensinado a furar filas ao invés de respeitá-las. Compra o bilhete e ganha uma piscadinha do bilheteiro. Ok, Nathye, você não tem tempo de voltar lá e brigar com ele, corre para as escadas.

Passa um Pai de Santo por mim, depois passa um leão marinho… De quebra chamando atenção pela esquerda veio uma baiana e como se não bastasse, depois do grupo de pessoas que passavam pelo mesmo caminho todas correndo e falando alto, me aparece carregando metade da fantasia na mão um polvo com chifres. Sim, eu também não entendi. Fui passando por esse povo esquisito até que achei uma placa onde dizia “Sambódromo”, com uma setinha para outra escada cheia de plumas pelo chão. Menos mal, ninguém mais viria no blog se aquilo soasse como alucinação.

Entrei no “tem”, como diria o João e logo sentei perto da porta. Um olho no mapa para contar incessantemente quantas estações faltavam e outro olho no grupo de pagode que sentou logo atrás. Ouvir música sem fone é proibido, mas tocar pandeiro, não. Ouvi quatro músicas, queria cortar os pulsos na primeira. Parada do Jabaquara! Desce correndo, pega a escada procura o guichê para retirar a passagem. Retira a passagem depois de enfiar o dedo dentro do guichê e engordurar a tela da atendente que magicamente não conseguia achar o meu nome na lista, afinal, nem todo mundo precisa saber que o “N” vem depois do “M”, né? Quando você está atrasada, fala seu nome e a pessoa começa a procurar na letra “B”, não adianta ficar brava, relaxa e goza, ou melhor, enfia o dedo na tela e faz olhar de Tia Paula com raiva, ajuda muito mais…

Que sede! Esqueci de beber água a tia Tatinha e agora só em Santos por um valor simbólico de oito reais, já que em quarto de hotel você paga pela estadia, pela cama, pela pintura da parede e pela TV a cabo de gato que milagrosamente pega até canais internacionais em francês, que não existem nem na nossa TV a cabo sem gatos. Ah, e claro, você paga até pela moça super educada que vem te trazer uma garrafinha de água com aquela cara de “Puta merda, se for pra me fazer vir aqui que você peça um super jantar e não uma garrafinha de água com gás, que você ainda reclama que está quente!” Então, fui ao quiosque da rodoviária mesmo a fim de conseguir algo por um preço justo.

Fila de mais 50 metros. Desisti da água… Tudo bem, o que são os oito reais perto da fila cheia de adolescentes comprando Nova Schin para tomar dentro do ônibus? Agora que faltavam 15 minutos eu tinha que correr antes do ônibus chegar para não correr o risco de entrar errado já que eram cerca de 10 ou 15 ônibus extras para todos os cantos do litoral paulista. Desci correndo desviando de todas as pessoas presentes e minha bolsa veio logo atrás derrubando metade delas. Cheguei à plataforma 10 e achei que definitivamente estava no lugar errado, pois nem imaginava que no carnaval os motoristas e auxiliares podiam pedir caixas de pizza do Habib’s e garrafas de coca cola 2l para comer ali mesmo, no meio do povo, infernizando o nariz de todo mundo com aquele cheiro de calabresa e engordurando seu bilhete de passagem… Que eles destacam a pare de cima e te devolvem a outra metade. Engordurada! Fedendo!

Respira de novo e entra no ônibus já que no inferno a regra é abraçar o capeta. Poltrona 31, janela, livre e tranqüila. Nem pensar, é claro que tinha um senhor bem robusto (bem robusto mesmo) sentado na poltrona 32 e atrapalhando meu sono de uma hora e pouquinho. Sentei no meu cantinho e fiquei esperando o ônibus sair enquanto ouvia Celine Dion lá nos anos 90 cantar um setlist inteirinho.

Ok, se você vai viajar de ônibus, aprenda pelo menos as regras de boa convivência de quem divide uma poltrona.

Regra n° 1: Nunca tenha conversas desconcertantes com a sua mulher na frente dos outros, ninguém (muito menos eu!) tem a obrigação de saber que ela manda em você e que você vai dormir na rua se não chegar em casa em 50 minutos.

Regra n° 2: Não termine a ligação e comece a jogar um game super legal no celular… Óbvio que eu vou ficar olhando para a sua tela!!!

Regra n° 3: Divida o braço da poltrona. Se a viagem é de uma hora, o que custa retirar seu braço por 30 minutos do encosto, esperar ele esfriar (claro!), e deixar que a outra pessoa use? Dá dormência ficar com o braço encolhido, sabia?

Regra n° 4: Depile o seu braço a lá Tony Ramos. E sabe porque você deve depilar o seu braço? Porque você é uma figura tão esquisita que como se não bastasse infringir todas as outras regras, os pelos do seu braço ESPETAM!

Enfim, se nenhuma dessas regras forem seguidas, vire-se para o canto e continuem com a Celine Dion cantando bem alto no ouvido. Pelo menos você morre “surda” e não “em surto”. Algumas horinhas depois e eu estava pulando pela janela do ônibus querendo sair daquele comboio aparentemente guiado por forças ocultas que se sentem felizes em pegar a estrada no carnaval. Peguei um bolinho frito na gordura mais suja do mundo e servido no prato mais mau lavado da história e corri para o primeiro táxi que apareceu, sem querer saber se o motorista tinha cara de traficante, estuprador, serial killer, etc (Conselhos de mamãe!), e falei o endereço depois da primeira mordida.

“Mo-moça, na s-s-s-sua cidade vo-o-o-cês comem dentro dos táxis-s-s-s?”

“Ahn… Sim, por quê?”

“P-p-p-porque fica com um cheiri-ri-ri-nho de comida, s-a-abe?”

“Não, não sei e eu não quero saber se seu táxi fedido, com essa cor brega e esse estofado de couro falsificado com música sertaneja vai ficar cheirando a gordura, seu gago filho da puta que tá impedindo uma menina educada como eu de comer depois de ter roubado somente um pãozinho na casa da minha tia!”

Claro que eu não respondi assim. Pelo menos não verbalmente. Embrulhei gentilmente o bolinho no pacotinho e guardei dentro da bolsa, já que meu anjinho bom não iria me deixar jogar pela janela. E guardei junto com o meu vestido lindo de verão novinho, que eu havia comprado só pra passar o tempo e ir bonitinha para Santos. ÓTIMO! Tudo que eu queria era abraçar o meu namorado fedendo a coxinha de galinha. Depois de nove dias sem se ver, deve ser uma delícia ser abraçada com cheiro de lanchonete de rodoviária… Por um vegetariano.

Chegando ao hotel só deu tempo de tomar um banho, esconder metade da decoração duvidosa (tem gente que sabe do que eu to falando…) embaixo da cama e ligar a TV. Friends já tinha acabado.

Deu uma vontade de chorar tão grande… Como assim depois daquilo tudo eu não veria nem o meu seriado predileto antes de dormir? Fui embalada por um sono emburrado e acordei de manhã com o celular tocando e o Caio dizendo que chegaria em minutos. Depois de todos os abraços –com cheiro de coxinha- eu me senti obrigada a não mentir:

“Minha principessa, quanta saudade! Que perfeito ter você aqui! Que linda e chei… err… Que linda e perfeita que você está! Obrigada por ter vindo… Como você está?”

“Cansada.”

Sambar na avenida é o caramba! Eu quero é dormir!


E ninguém acredita…

fevereiro 8, 2012

Por Nathália DePaulla.

Tia Paulinha, obrigada por TUDO.

Nunca acreditei em ninguém também. Sempre acho que pessoas alegam uma mudança que na verdade não acontece e que não faz diferença nenhuma. Considero chilique, considero algo que fazem somente para chamar atenção, mas fizemos. Eu nem lembro de quem éramos antes, nem lembro das angústias e problemas que nos fizeram errar, mas tenho viva a memória de quem prometemos ser quando tudo apertou a garganta e nos fez chorar até dizer “chega, acabou”.

Será que levam em consideração o nosso foda-se para todo mundo? Será que entenderam que dessa vez ninguém vai se meter e que opiniões e atitudes invasivas serão ignoradas? Será mesmo que entenderam que nosso mundo não pertence a mais ninguém?

“- Ninguém sabe o que se passa entre a gente e muito menos o que a gente conversa no nosso espaço.”

Eu também acho! E concordo com o que você disse… E é por isso mesmo que eu aceitei esse mundo só nosso, que mesmo aparentemente estranho, paralelo e confuso é SÓ NOSSO. Queremos mais que se cansem de falar e gritar os que não acreditam e que tentam interferir. Você se livrou de muita coisa inútil e pesada na sua vida, eu também. Pessoas são pesadas e inúteis, as vezes… E quando a gente encontra esse erro e esse peso as coisas se tornam mais fáceis. Engraçado, não? Mas é engraçado e incrivelmente bom quando esse peso se torna leve e reciclável como fizemos. Você mais que eu, me sinto tão orgulhosa de você!

Não somos manipuláveis, não somos vendidos como tantos acham que somos… Somos somente políticos a ponto de sair de situações esdrúxulas sem que ninguém perceba que também jogamos. Talvez “estamos crescidos”, talvez não, mas isso é problema nosso. Quem sabe aprendemos a peneirar informações como diria a sua (nossa! minha!) tia Paulinha? Quem sabe aprendemos a escutar sem escutar e colocamos todas essas informações ruins bem longe de nós a ponto de isso não nos machucar ou interferir mais?

Você é um moleque covarde aos olhos de alguns anexos familiares, eu sou apenas uma patricinha sem conteúdo que chegou somente para atrapalhar. Mas é isso mesmo que vemos quando nos olhamos? É isso que encontramos no nosso sorriso sincero quase invisível aos outros quando estamos sozinhos? É isso mesmo que passamos um ao outro quando um problema chega e um só consegue correr para o outro mesmo com uma situação ruim instalada?  Não, não é… E essa conexão, essa força, essa coisa que não poderia ser criada com mais ninguém que se torna tão forte que chega a incomodar no peito. No nosso não, mas no dos outros que torcem para que isso não seja tão concreto, sim.

Que nos desculpem, mas é SIM concreto. Ninguém aqui fala em “para sempre”, ninguém fala em eterno… Falamos somente em “o que queremos agora”, e se queremos, fodam-se de novo os que não querem. Combinamos em não ligar para isso, combinamos em não deixar mais ninguém entrar. Eu mantenho a minha promessa, você também. E que seja perfeito, seguro e gostoso enquanto durar.

E daí se ninguém acredita?

Eu acredito e você também. Feito.

Não adianta, isso é SÓ nosso...


Perder para ganhar

fevereiro 1, 2012

Por Nathália DePaulla.

Eu nunca vou esquecer essa frase. Aprendi tanto com ela como em tudo aquilo que acontecia. Percebi que desviar de certas pedras é sempre melhor que chutá-las com seu sapato novo, que as vezes você precisa de distância para ficar ainda MAIS perto, que com o colo de uma tia goiaba ou uma bagunça com uma tia musicista você pode esquecer os momentos ruins e reviver para o mundo. Aprendi que para ganhar uma solução você deve se jogar direto no problema… Deu certo, no final eu ganhei.

No começo eu não entendia. “Mas que diabos de frase é essa onde a minha infelicidade ainda assim é um degrau pro aprendizado que tenho que subir sozinha?” Nunca ouvi dizer que primeiro você cai, depois ganha, mas é exatamente assim que acontece. Você não comemora antes de fazer um gol, mas as vezes tem de marcar uma falta antes dele… As faltas eu cometi, até cartão vermelho eu tomei. Mas no fundo você sabe quando nunca deixa de ser titular.

Perdi para ganhar sim! Ganhei uma confiança que ficava escondida embaixo de uma pilha de roupas no canto do quarto, ganhei uma paz e uma traquilidade que parecem mais o colo da Miana e da Tia Paulinha e ganhei também uma arte de rir do que aconteceu e que já me disseram que faz parte da personalidade de mulheres bem resolvidas. Então eu só ganhei e na verdade nunca perdi?

Posso ter perdido o medo, perdido a ansiedade, perdido a confiança em quem não merecia e que só atrapalhou. Perdi a graça de achar problemas nas coisas pequenas, perdi de vista os que me faziam mal. Não ligo de ter perdido nadinha disso!

Pois ganhei mais abraços, os melhores beijos, agora não ganho mais “te amos”, mas, “Te amo muito, muito mais”, ganhei os melhores sorrisos, os melhores elogios, os “melhores” que só a gente entende e que ninguém mais vai saber. Ganhei um coração por inteiro de novo, ganhei toda-a-certeza… Ganhei mais amor.

Mas também ganhei o início disso tudo, desse estado gostoso de paz e amor interior… Ganhei uma frase, que vai me acompanhar por toda a vida!

“Perde pra ganhar, Nathye!”

(Des)Enrolados!


Seis.

janeiro 18, 2012

Por Nathália DePaulla.

*Para Danyara Corona, que pediu um texto aqui no blog mas merecia uma página de jornal.

“Ei, você sabe onde é a sala de jornalismo?”

“Não, eu também to perdida…”

“Então calma aí que a gente desce juntas essa ladeira ridícula e se acha.”

Seis anos é muito para lembrar essa cena. Mas como assim não lembrar a cena que deu início a um mundo paralelo de risadas, micaretas, fossas, bafões e pensamentos positivos(?) para que o professor de Economia morresse de gripe aviária? Conhecer a Dany foi de longe a parte hilária da faculdade e a parte mais inacreditável também, porque quando você menos espera, ela fala cinco palavras que se tornarão o próximo jargão do grupo e que você vai passar vergonha quando falar em público e ninguém acreditar no quão improvável aquela frase é.

Foi menos de um período para ver o tamanho do coração da Dany, infinitamente maior que nossas saias e shortinhos de micaretas mesmo com o defeito da válvula mitral. Aliás, é possível amar tanto a ponto de desgovernar a válvula mitral? Sim, para a Dany é. E enquanto eu queria caminhar até Colatina para bater no elefante que a magoava, ela agüentava todos os meus chilicotrecos de bailarina em crise que sempre faltava na aula mais importante para ensaiar.

Foram meses de companheirismo, anos de parceria sentadas na última fileira e inúmeras situações complicadas, inclusive quando ela teve o dever de almoçar comigo em casa para que minha mãe tivesse certeza de que ela era tão traquinas quando eu antes de viajar para São Mateus em uma tórrida missão de fim de semana. Ou será que era Colatina? Talvez ninguém nunca saiba que o ônibus seguro nunca existiu e no lugar tinha um carro à 120Km/h guiado por um amigo de 20. Ela agüentou o Pedrinho recém-nascido gritando, fraldas, minha Yorkshire ainda sem banho e a lasanha com katchup, que eu descobri depois que ela odiava!

Caminhar com a Dany pelo campus era pedir para chamar atenção. No lugar dos livros, celulares e sessenta mensagens para os digníssimos namorados na época, no lugar do jeans, as saias que nos impediam de subir escadas. Uma loira, uma morena. Uma sociável, a outra emburrada e anti-social. As duas… Loucas.

“Eu não tenho grana pra ir nesse show, diva!”

“Cala a boca, eu já comprei o seu ingresso e você vai.”

Essas eram as brigas que rolavam. E que se desfaziam quando ela foi a única que passou meu aniversário de 21 anos comigo. Nada demais, um balde de coca-cola, uma pizza, o silicone recém colocado da Dany e um presente infame. Ainda não tive coragem de usar o “pintômetro” que ela me deu, mas… Continua guardado!

Sentar no Burguer King sem você não tem graça. Outra faculdade? Ah, não… Tinha que ter a Dany! Tinha que ter as conversas, as brincadeiras, as irritações e as falcatruas. Tinha que ter alguém me chamando de “vaca” no Orkut, me deixando depoimentos lindos. Tinha que ter o sorriso, a gargalhada de meretriz e os conselhos, as idéias sem noção. Tinha que ter a Nathye segurando vela, operando a webcam nas noites mais malucas da Dany. Aliás, tinha que ter até o ciúme quando ela deixou o time das solteiras… Mas tinha também que ter a torcida, a amizade, o desejo de que tudo desse certo para ela. Tinha que ter esse encontro, a distância, o reencontro e a descoberta de uma admiração que eu nem sabia que existia dela por mim e que eu talvez nunca tenha deixado claro a minha por ela. Tinha que ser do jeitinho que foi.

Esquece o sono, desce a ladeira

Vai até o último minuto daquele calor infernal,

Bagunça o shopping, compra coisas que nem precisa…

Se mostra amiga, fiel, se distancia e depois volta.

Cobra tudo que pode, faz merda, faz rir

Conquista pessoas, sonhos, conquista nas micaretas,

Mostra mau humor no primeiro dia de aula…

Me conquista assim!

É indecisa, as vezes irrita e no final você esquece

Ela não quer saber da tua opinião.

Não pensa, ou pensa demais antes de fazer qualquer coisa.

Mas no último minuto te manda entrar no MSN e estremece.

Ela nunca te chama pelo nome,

Faz voz esganiçada de adolescente e te chama de Diva.

Ela também mostra que nunca te esquece…

Mais que um bom motivo para também nunca ser esquecida.

É a única filha da puta que me faz escrever poemas!

Não importa onde, é sempre Diva.

…Acho que te amo também, Dany!

Pode não ser a foto do Burguer King, mas sei que foi sua foto de Mural...