Por que será que os seriados americanos roubam a cena do cinema a cada dia?
Por Nathália DePaulla
Eles nos fazem companhia uma vez por semana. Trinta minutos, uma hora, não importa! Do sofá de casa viajamos diretamente para vários mundos: o policial, o político, médico, científico ou simplesmente para o das risadas. E o melhor de tudo: quase que gratuitamente! Talvez seja essa a razão pelo qual os seriados norte-americanos, que passam principalmente nos canais de TV a cabo, roubam o lugar dos cinemas a cada dia.
Início dos anos 90. Quem tem mais de 20 e poucos anos se lembra de como era bom sentar ao sofá e assistir as aventuras de Shazam, Twin Peaks, Baywatch e Beverly Hills. Não diferente de hoje, as séries continuam a atrair milhares de discípulos por onde passam, arrecadando quantias bilionárias a esse novo mercado de Hollywood.
Essa avalanche causada pelos seriados, também chamados de “sitcoms”, se dá por conta de alguns fatores que vão de encontro às questões comportamentais dos fãs. Pontos como proximidade, identificação e fantasia estão seriamente ligados a essa febre que toma conta dos canais de TV a cabo e atualmente alguns canais de TV aberta. E é aí que o cinema perde espaço. Além da comodidade de não precisar sair de casa, os seriados proporcionam ao fã uma série de itens que podem dar longevidade ás obras dos produtores de seriados. Além disso, muitas vezes os fãs colaboram com a série, o que diminui a distância entre criador, criatura e… viciados!
No cinema, após o término do filme o máximo que acontece é a espera do lançamento em DVD que vai das locadoras à TV de casa, mas com as séries é um pouco diferente: a cada semana, produtos lançados na internet fazem a cabeça dos seguidores que desembolsam quantias muitas vezes consideradas absurdas para adquirir produtos e estar cada dia mais ‘perto’ de sua série predileta.
O fato de saber que haverá um episódio novo a cada semana também é um item de peso na lista dos adoradores de seriados. “Com o filme,a gente sai do cinema triste porque acabou, com o seriado a gente passa a semana toda esperando pra ver os personagens de volta na tela. Eu sempre achei que filmes duram muito pouco, sempre quero mais, mas nunca dá! São poucos os filmes que tem uma continuação legal, sem contar que os seriados duram anos!”, conta Juliana Passarini, dentista, fã da série Baywatch desde os anos 90 e que agora acompanha Damages, pelo canal pago HBO.
E não é só Juliana que integra esse mundo dos seriados, cada série chega a ter mais de três milhões de fãs do início ao fim do legado. Essa migração das salas de cinema pras salas de casa ocorreu principalmente por causa do elenco, pois muitas vezes os atores que fazem a série fazem mais sucesso do que a série propriamente dita. Divididas por temporadas, a cada período entre a “Season Finale” e a estréia da nova temporada, os fãs se desesperam por spoilers, fotos, notas da produção e ainda brincam de escritores com as fanfictions, que narram cenas dos personagens de acordo com a história da série, ou simplesmente como os fãs gostariam que fosse.
A migração. Como aconteceu?
Antigamente as pessoas iam ao cinema por falta de variedade na TV. No Brasil, como o forte ainda são as novelas, quem não gosta desse tipo de programação só tinha o cinema como diversão alternativa, mas com a popularização da TV a cabo, séries como Arquivo X, Ally McBeal, Seinfeld e Friends caíram nas graças do povo, tornando-se os carros chefes de canais pagos como Warner e Fox.
O fato de ter periodicidade semanal dá aos fãs um motivo para se ater a frente da TV toda semana. De sete em sete dias, um episódio novo é apresentado, e cerca de cincos minutos após sua exibição são inúmeros os posts que circulam pela internet comentando sobre o que foi exibido.
È bem mais fácil acompanhar uma série do que um filme, aliás, não é mais fácil, mas na visão dos fãs é mais gostoso. As séries possuem temporadas com cerca de 20 a 22 episódios e a cada semana, com uma nova história ou uma continuação, o enredo dura anos, o que não acontece no cinema, como citado anteriormente. Muitas pessoas não têm paciência para ver um filme inteiro, mas esses 30 ou 60 minutos na frente da TV são perfeitamente aceitáveis, até mesmo porque os seriados têm intervalos, o que não acontece no cinema.
“No cinema, a gente perde o filme se for ao banheiro. Isso é horrível já que nos seriados, além dos intervalos a gente pode controlar o play e o pause se tiver a TV a cabo interativa. É possível parar, continuar, gravar, voltar a cena… fazer de tudo! Isso que dá graça de ver seriado”, conta Débora Ferreira, a médica de 35 anos, que se diz em séries de TV desde os 22 anos de idade. “Tudo começou com Friends e agora, vai muito além, eu procuro pelos lançamentos, assisto aos pilotos e morro se tirarem a TV a cabo de mim!”, conta a médica.
Essa é somente uma das vantagens encontradas pelos fãs para trocar o cinema pela sala de casa, já que além dessa interatividade, os seriados têm um horário fixo na grade tanto para exibição como para as reprises, o que dá uma flexibilidade para aqueles que trabalham ou estudam nos horários de exibições.
No cinema, o filme fica em exibição por cerca de três ou quatro semanas em horários fixos, mas mesmo assim em muitas vezes não agradam aos usuários. “Eu queria muito ver o filme Marley e eu, com a minha triz predileta, a Jennifer Aniston, mas o filme tinha exibição somente às 16 horas, 19 horas e 22 horas… Todos os horários que eu estava ocupada, por isso tive que esperar chegar à locadora. Mas sempre pude ver a Jennifer [Aniston] na TV semanalmente em Friends”, afirma Maria Clara Perez, a veterinária de 26 anos. “A série era exibida às 19 horas toda terça feira, mas tinha reprise a 01 hora da madrugada e no outro dia, 01 hora da tarde. Fica bem mais fácil ser fã de seriado do que ser fã de filme de cinema”
Os fãs…
…São de idades variadas. Crianças, jovens, adultos, médicos, advogados, bailarinas… Mesmo com todas essas diferenças eles se reúnem em prol da mesma paixão: o seriado predileto. A internet proporciona uma movimentação enorme através dos grupos de discussão que aproximam pessoas de diversos estados e até mesmo países diferentes com o fim de promover a informação das séries de TV exibidas. Na internet é fácil encontrar pessoas que se identificam somente pela série e nada mais, o que possibilita um leque variado de opiniões sobre o mesmo tema.
Lunna Rios, 23 anos, mora em Minas Gerais, é formada em psicologia e tem como melhor amiga, Luiza Avillar Campos, 20 anos, estudante de Engenharia Civil. As duas não dividem os mesmos estilos musicais, não se vestem da mesma forma e nem se interessam pelos mesmos livros, mas se adoraram desde a primeira conversa sobre… House. A série, que está na sua atual quinta temporada narra o dia-a-dia de um médico arrogante que tem como desafio diagnosticar os mais complicados casos em um Hospital americano movimentado.
E não são somente as duas que fazem parte desse mundo médico, Elaine Nascimento, Jornalista, também é uma fã apaixonada, que acompanha a série semanalmente não só pela TV a cabo, mas pelos episódios que baixa antecipadamente pela internet, já que todas as séries demoram cerca de três semanas para virem dos canais americanos para a nossa telinha.
“Eu não costumo ser fã de um seriado só. No momento acompanho House fielmente, sou Huddy* mas tenho gosto por outros também, depois que o seriado acaba fica ruim rever o mesmo episódios várias vezes, aí a gente acha outra coisa para se dedicar, mas o carinho fica”. Além de House, ela também participa de grupos de discussão de Arquivo X e participa dos encontros promovidos pelos integrantes.
Como Elaine, ou Nani como gosta de ser chamada, outras pessoas com interesses diferentes se unem por conta das séries. Algumas vezes, acontecem até certas indisposições por conta das opiniões, mas são tantos amigos em comum e tanta paixão em comum pelo programa em questão que fica sempre tudo resolvido, e além disso, as novidades expostas na rede são tantas, que quase não sobra tempo para discussão!
E a internet ajuda!
Além das informações sobre o seriado, os produtos promovidos pela produção das séries fazem a cabeça dos fãs. Camisas com fotos, canecas, Dvd’s, Cd’s com trilhas sonoras entre outras coisas são disponibilizados em sites oficiais e ajudam no caixa bilionário da série. O mercado movimentado por essas vendas chega a arrecadar mais de 4,9 milhões por ano somente aqui no Brasil. “Eu não ligo de gastar com a série que eu amo porque adoro andar por aí com camisas e outros acessórios da minha série… Sei lá, essa coisas marcam a vida da gente, vale a pena ter e compartilhar”. A fã que adora gastar com suas séries é Tássia Camargo, professora de Ed. Física, 29 anos, que como tantos outros fica de olho nos lançamentos das produtoras.
Para os colecionadores, qualquer material nunca é demais. Quando um filme chega às telas do cinema, o máximo que se consegue são as matérias de promoção que são publicadas em revistas e cadernos culturais do jornal. Com exceção dos grandes clássicos, pouco se consegue das produções que ficam cerca de um ou dois meses em cartaz, e nesse quesito, não lucra mais do que as séries.
Outro ponto que dá vantagem para as séries sobre o cinema é que no Brasil, os produtos chegam a ser três vezes mais caros do que nos Estados Unidos. Um Box de temporadas chega no país por 100 ou 120 reais, enquanto nos Estados Unidos eles podem ser comprados por cerca de 49 dólares. O Dvd do filme Sex And The City (Eua, 2008), que aqui custa R$ 59,90, pode ser comprado pelo site da Fox ou da Amazon por US$ 29,00.
Além de compras, a amizade também é promovida pela internet, o ESfiles, grupo mais antigo e mais sólido de Arquivo X (The X Files, 1993-2002) do Espírito Santo também utiliza a internet como ponto de encontro. Fundado em 2001 por Cinthya Melotti e Thaís “Sunny” Krischer, o grupo hoje reúne fãs de todos os estados, e promovem encontros anuais onde os “estrangeiros”, como são chamados pelo grupo, saem da frente do monitor do computador para a cidade de Vitória, aqui no espírito Santo anualmente.
“Todo ano não vejo a hora de viajar para ‘Vix’ e rever todo mundo. A gente faz tudo com muito carinho e se falar sempre pela internet. Se Arquivo X fosse somente um filme, eu duvido que teríamos tudo isso há sete anos. 2008 foi um ano que marcou por conta do novo filme, mas em 2009 a gente espera muito mais”. A afirmação é de Beatriz Alves, que mora em Belém e cedeu uma entrevista via MSN. Além dela, muitos outros “estrangeiros” que fazem parte do grupo preferem seriados à cinema.
Devido ao seriado, o grupo chega a ter mais de mil mensagens por mês no fórum on-line que leva o nome do grupo, hospedado no Yahoo. Por mais que os assuntos tenham algum comentário externo, tudo gira em torno da série. E não para por aí! O grupo promove premieres com direito a salas de cinema fechadas somente para eles, encontros de fim de semana, maratonas e muitas outras coisas que só os fãs da série entenderiam. O lema do grupo é manter a acesa a chama da série mesmo depois do fim da mesma, e como foi comprovado, é o que acontece.
Mas isso vai muito além…
Algumas pessoas acham até que o que as une é somente o seriado, mas com o passar do tempo, a relação de amizade se torna intensa e os grupos se tornam a famosa grande família internética. No Esfiles, muitas outras coisas são divididas além dos episódios de Arquivo X. Eles estão juntos também nos momentos ruins e cada um ajuda o outro como pode.
Outro grupo mantém algo parecido, no “Just Friends”, grupo criado há cerda de sete anos para os fãs do seriado Friends (1994-2004) e que prega a amizade vista entre os seis personagens da série também fora das telas. Nathália Ferreira, 22 anos, que faz parte do grupo desde a criação explica como tudo acontece: “Ficamos juntos em qualquer momento. A hora de se encontrar na net é sagrada e as visitas a outros estados para ver nossos “irmãos” é perfeito, eu devo isso tudo ao seriado, afinal a gente se conheceu por causa dele e vai morrer unido por ele”.
Como Beatriz, Nathália concorda que isso nunca acontece no cinema. “Lá somos totalmente estranhos, já que depois do filme, todo mundo vai embora e ninguém se vê nunca mais. Seria muito bom se houvesse essa conexão com os filmes também”, justifica.
Os encontros promovidos causam alvoroço e ansiedade nos integrantes, neste ano por exemplo, os fãs de House, não vêem a hora de se encontrar também. O evento será em São Paulo no mês de Abril, e ninguém acredita que tudo começou por uma comunidade em um site de relacionamentos da internet.
Os produtores fazem a série… Será???
Os seriados não teriam tanta graça se os telespectadores não tivessem uma espécie de participação no rumo da série. Em 97, quando o criador da série Arquivo X anunciou a saída do Ator David Duchovny do seriado, milhares de fãs se comoveram e fizeram movimentos pela internet e por cartas pedindo o retorno do ator a série. Tudo teria dado certo se essa não fosse uma escolha do ator e não da produção.
Os relacionamentos entre personagens, a retirada e entrada de personagens são muitas vezes inspiradas na vontade dos fãs. E como isso e feito? Através das informações enviadas aos produtores pela internet. Esses mesmos fóruns de discussão de fãs muitas vezes têm em anonimato produtores e outros integrantes da equipe que se associam somente para ver o que acontece no mundo do fanatismo.
“Essa é a nossa vantagem! O filme vem para a gente prontinho, deixando espaço somente para críticas posteriores mas nunca dá para mudar nada. No seriado, de temporada para temporada, eles são capazes de mudar aquilo que não agradam os fãs, por isso que a audiência depende somente da gente”, comenta Tássia Camargo, estudante de jornalismo, 23 anos.
Os fãs se desesperam com rumores de fim da série, criticam envolvimentos, separações e fazem de tudo para ter seus personagens preferidos no ar enquanto puderem, tanto que o sucesso de Friends durou por dez anos seguidos mesmo o anúncio do fim sendo feito na sétima temporada. Outro seriado que permaneceu no ar por mais de dez anos foi Seinfeld. Na época, os fãs juraram suicídio coletivo caso os produtores terminassem mesmo a série. Verdade ou não, a série continuou no ar por cerca de mais cinco anos.
Sub-retranca: Quem dá mais dinheiro no final?
Em vista da guerra fria entre cinema e TV, é comprovado de que a séries dão bem mais dinheiro do que os filmes, mesmo quando eles são frutos das próprias séries. Em 2008 quando Arquivo X, filme esperado por todos os fãs do seriado, foi lançado, arrecadou somente US$ 10.000 em seu final de semana de estréia. A quantia parece alta, mas essa não é nem a metade do que o programa arrecadava em uma única temporada na TV.
Talvez o segredo mantido em volta das produções cinematográficas afaste os fãs das obras, por isso, as tão aclamadas séries vêm para suprir essa falta, já que os spoilers estão disponíveis para qualquer internauta nas páginas da web, com direito a opiniões e sugestões que podem -ou não- ter conhecimento dos produtores das séries futuramente.
O Info Online divulgou em agosto de 2008 que mais de 5,4 milhões de lares têm TV a cabo no Brasil, fora os 40 mil que têm TV a cabo irregular. Considerando que a variedade de séries é maior a cada dia, e que uma pessoa assiste em média cerca de três séries, se todos forem adquirir produtos o mercado das séries sobe no ranking significativamente em cima do mercado cinematográfico, que mesmo lançando um número alto de filmes por ano, não consegue manterá febre levada pelas séries por muito tempo, ao passo que não há nada de inédito sobre um filme após o lançamento .
Esse é o motivo pelo qual o filme Sex and The City (1998-2004) fez mais sucesso nos cinemas do Indiana Jones, toda produção que tem como base um seriado, agrada mais do que quando começa pelo filme propriamente dito. sex
Mas…
…Há quem goste ainda das grandes telas. Seja para acabar com o tédio ou somente para sair de casa, algumas pessoas ainda relutam em abandonar os cinemas. O cheirinho de pipoca, a movimentação e o famoso escurinho ainda conquistam um público cada vez mais seleto, mas ainda assim, amante dos cinemas. “Eu nunca vi graça em ver filme em casa, porque quando a gente vai no cinema parece que o filme foi colocado lá só pra gente, de forma especial. Em casa ele se torna um DVD”, pontua Lúcio Ponttes, engenheiro elétrico, 31 anos.
Como Lúcio, seu irmão, Carlos Ponttes também faz questão de ir ao cinema pelo menos uma vez a cada 15 dias, mas confessa que tem lá suas séries preferias. Em um site de relacionamentos da internet, em geral pode-se conferir que cerca de 74% dos usuários preferem séries, contra outros usuários amantes de cinema.
Box: A psicologia por trás do fanatismo
“Na verdade, o que acontece na relação entre fã e série é bem simples. Por estarem sempre na televisão, os seriados acabam por influenciar diretamente a vida de quem assiste, no cinema um filme acaba de sair de cartaz e a gente logo esquece para poder comentar outro, ver outros. Já houve casos em que tratei de pessoas que se sentiam infelizes por não terem características iguais aos dos atores de seus seriados ou por acharem que nunca iriam ser aquele profissional perfeito que se vê na tela, que na verdade nem existe. Muitas vezes os telespectadores não conseguem diferenciar o ‘gostar’ do ‘idolatrar’ que sempre faz mal.
Nem sempre os fanáticos entendem que aquele cabelo da atriz principal demorou horas para fazer, que os olhos são lentes e que o corpo perfeito é resultado de um dia inteiro de treinamento, o que não nos é possível. Eles são pagos para estarem sempre daquela forma espetacular e a única coisa que fazem é aquilo. Algumas pessoas tomaram decisões após verem filmes e séries e tiveram um rumo diferente. Aí sim é saudável, fora isso, é um caso a ser levado a sério, porque não é de hoje que vemos adolescentes invadindo escolas com armas pesadas após verem filmes violentos ou jogarem games onde o principal alvo era agredir ou ferir gravemente outros jogadores e personagens. É algo a se pensar.”
Débora Ferraz, 44, Psicóloga.
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Monica, Rachel, Phoebe, Ross, Chandler e Joey: O seriado-vício da autora durante 10 anos. E o seu, qual é?
Escrito por nathaliadepaulla 
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