A trajetória de uma vencedora
Por Nathália De Paulla
Ela chega sorridente ao local combinado. Eu que já havia chegado há alguns minutos, olho no relógio e não posso deixar de mostrar um sorriso ao ver que ela chegara pontualmente. Seu “Olá, tudo bom?” veio acompanhado de dois beijinhos e um sorriso verdadeiro, daqueles que você não vê com muita freqüência. E então para quebrar o gelo ela pergunta: “E o trabalho, está fluindo!?”. Respondo calmamente e, ao ouvir “Ele acabou de começar” como resposta, ela gargalha, e é assim que damos início a nossa conversa. Giulia Bard Brittes, fala como é ser bailarina, fisioterapeuta, voluntária e mãe, e ainda ter tempo para almoços de entrevista.
Ao olhar para Giulia você não faz idéia do que ela vem a ser. Corpo esguio, estatura média e cabelos pretos caídos pelo rosto delicadamente combinando com os olhos amendoados. Ela senta com uma postura de bailarina como se tivesse acabado de sair de uma aula de etiqueta, ajeita os cabelos e me encara, como se estivesse esperando por um tsunami de perguntas.
“E então, Giulia… Fale-me um pouco de você, da sua infância…”. Percebo que ela desvia o olhar para um ponto vago na mesa, com ar pensativo. Em poucas palavras conta que era uma criança quieta, tímida. Odiava sair, conversar ou até mesmo fazer programas em família, sempre preferiu ficar em casa vendo TV ou no seu mundo imaginário, pensando em como arrumaria o cabelo de suas bonecas ou trocaria suas roupas.
De fato, essa descrição combina bem com a Giulia que falava comigo naquele momento. Percebe-se que ela tem um ar tímido, reservado, que talvez passe uma sensação de calmaria e leveza ao conversar com ela. Quem a vê não imagina que aos oito anos Giulia entraria no Ballet por insistência de sua mãe, e se apaixonaria tanto pela arte. Paixão essa que pode ser vista em sua pequena tatuagem no pescoço, com o desenho de duas sapatilhas coloridas em tons de rosa. Ela conta que foi uma experiência engraçada entrar em contato com a arte naquela idade. Até então, tudo se resumia apenas em bonecas e conversas com ela mesma.
“Ah, foi surreal! Eu era magrela e tímida e as meninas eram todas comunicativas com o nariz em pé. Eu demorei um bom tempo para me acostumar ficar parte do meu dia no meio delas.” Talvez tenha sido sorte para ela aprender a conviver com mais gente ao redor, pois foi nessa época que ela teve um grande choque ao perder a avó vítima de câncer, que era uma grande amiga e aliada com quem dividia doces antes do almoço escondido da mãe e brincadeiras antigas; “Eu me lembro que sentei de frente pra janela e fiquei alí, quietinha, só lembrando dela e tentando entender o que estava acontecendo. Era uma dor enorme, às vezes. ficava complicado demais respirar sabendo que ela são estava mais ali.” Parecia que o mundo ia diminuindo e eu parada, esperando acabar.”
Silêncio total. Nem eu nem Giulia dissemos nada por segundos, eu percebi que estava tão comovida quanto ela, mas mesmo com olhos marejados, ela conta que foi assim que as amigas do Ballet agora viriam substituir as tardes de sábado que tinha na casa da avó e contribuir com o vício por chocolate, mesmo que fosse escondido da mãe e da professora. E que a saudade enorme que sentia com o tempo não doía mais, ela a transformava em algo melhor, com felicidade por ter tido a melhor avó do mundo.
Com o passar do tempo as coisas se acalmam. Giulia permanece na dança e na escola paralelamente, se tornando solista aos 16 anos depois de muito esforço e dedicação. “Acho que me jogar por inteiro na dança foi uma fuga, uma forma de não perceber que eu tinha problemas ainda por ter perdido alguém importante. E eu realmente gostava de estar fazendo aquilo.”
Entre lembranças que agora ela contava para mim, um misto de felicidade e empolgação toma conta dela ao citar seu primeiro solo, “Era como se eu estivesse lá e ao mesmo tempo estivesse em uma sala de aula qualquer… Eu me sentia bem e calma, dancei sozinha e foi ótimo ter o palco só pra mim, mas eu não podia nunca deixar isso me subir a cabeça. Aprendi cedo a ter os pés no chão, poderia ser meu primeiro e último solo, eu não tinha como saber!” Foi nesse dia que ela estreou como “Swanilda” no espetáculo “Coppélia” criado por Delibes.
Ela conta que foram anos mágicos e inesquecíveis, afinal ela estava vivendo o sonho de milhares de jovens e não pretendia abandoná-los nunca. Nem mesmo o fato de deixar de sair com as primas nos finais de semana ou a falta de tempo para qualquer outra coisa a fez desistir, pelo contrário, a cada ensaio pesado, ela queria mais.
Daí em diante foram só sucessos. “Mas suas amigas não ficavam com inveja ou coisa do tipo?”, pergunto curiosa, “Não, elas torciam o nariz no começo, mas depois me davam conselhos e dicas, éramos uma família.” Depois de contar inúmeras histórias como na vez em que ficou com soluços no meio do palco, ou quando esqueceu as sapatilhas e chorou desesperadamente, ela se entristece ao falar da época em que teve que reduzir a carga horária por causa da faculdade de Fisioterapia que cursou. Percebo que ela procura as palavras com todo cuidado para dizer que de início fez mais por causa de sua mãe, mas que depois acabou gostando.
Giulia, que agora apoiava o queixo nas mãos entrelaçadas, conta que nem sempre tinha ânimo de ir para a faculdade. Matava algumas aulas para ensaiar mais ou ir a apresentações, mas que sempre mantinha boas notas. E foi nessa época que uma reviravolta aconteceu! Faculdade, Ballet, sua mãe querendo lhe abrir uma clinica e seu pai insistindo para que fizesse intercâmbio. E agora!? A menina bailarina se viu entre a cruz e a espada, não adiantava chorar ou reclamar, ela apenas tinha que fazer uma escolha.
Ela sabia que precisava de uma carreira sólida. Gesticula levemente quando entramos nesse assunto, como se estivesse tentando me transportar para dentro da situação que vivera. “Eu não sei explicar como era ter que fazer aquela escolha, ainda mais sem a ajuda de ninguém… Mas eu fiz, e acho que deu certo!” Ela dá um risinho breve, como se ainda estivesse surpresa com o que tinha escolhido. “Mas e então, o que ficou na sua vida!?”, Pergunto enquanto ela nega a sobremesa que o garçom havia oferecido. “Bom, foi o Ballet. Eu sei que pra ser bailarina e viver disso em um país que não valoriza muito a arte é complicado demais, mas imagina a minha frustração se não tentasse!?”
Confesso que já sabia da escolha dela, mas não poderia perder a chance de vê-la falando com as próprias palavras da guerra que se formou ao contar isso para pais e amigos. “Você perdeu totalmente o juízo! Pare com isso e foque sua carreira na área de Fisioterapia”, isso foi o que e bailarina ouvira por anos até provar que não ia mudar de idéia, e realmente, não mudou. Mais uma vez, Giulia prova que poderia fazer algo sozinha.
Resolvo entrar em terreno perigoso. Por baixo da mesa esfrego as mãos por saber que posso estar enrascada ao ver Giulia estreitar os olhos para responder como se esperasse por aquela pergunta. Nessa época, com “vinte e poucos anos” como ela costuma definir, Giulia pensou que seu sonho iria por água abaixo ao descobrir uma gravidez que não havia planejado e ver o namorado ir para a França quando ela estava no quarto mês. Confessa que não foi nada agradável, e ninguém no mundo entende o que ela passou.
“Sim, eu o odiei naquele momento, sabe? É uma coisa que ele não podia nunca ter feito. Eu poderia ter feito uma besteira de tão insana que fiquei!”, conta ela agora com um tom de voz mais firme, como se ainda estivesse com vontade de dizer isso a ele. “E você nunca fez!?”, “Não, eu simplesmente recebi a notícia por telefone e disse “Ok, leve roupa de inverno… E desliguei em seguida. Foi a última vez que falei com ele.”
Nesse momento ela ergue as mãos como se estivesse se fazendo a mesma pergunta que eu e dá um ar de desentendida, sem saber explicar o porque daquele comentário pro namorado em um momento tão sensível. Pergunto o que ela fez depois daquilo, e não pude deixar de rir depois de ouvir sua resposta: “Enlouqueci!”, pausa de alguns segundos, “Enlouqueci com todas as letras…”.
Ela conta que a faculdade a ajudou muito a superar. Formou-se e estava prestes a virar mãe, e agora sabia que não poderia mais viver somente com o dinheiro da mãe e um emprego seria uma ótima idéia, por isso aceita a oferta de ganhar um consultório do pai, e começa a investir nele, já que teria que se ausentar do ballet por pelo menos um ano, ou mais. Mas não foi isso que ela fez, ia à escola de dança duas vezes por semana, ver como estavam as coisas pois alega que não conseguiria nunca ficar longe daquele mundo.
“Eu queria algo para cada hora do meu dia. Eu queria ser fisioterapeuta, queria aprender a ser mãe e queria algo pra me ocupar enquanto eu não estivesse ouvindo CD’s de Ballet e vendo DVD’s das grandes companhias. Foi aí que surgiu a idéia de ser voluntária”, A agora fisioterapeuta mergulha em trabalho e ao mesmo tempo se torna voluntária em escolas, ensinando um pouco de arte e cultura para crianças sem condições financeiras. Conta que era gratificante vê-las mexendo em sua barriga ou até mesmo se interessando pelo Ballet ou qualquer outro tipo de dança, e que aquilo a manteve viva por muito tempo.
“Mas você fez algum projeto, ou coisa do tipo?” Perguntei ao ver que esse foi o momento de empolgação depois de contar tudo que passou. “Fiz… no final daquele ano, elas dançaram para os pais em um pequeno recital. Umas choraram no final e aquilo me comoveu demais. E minha filha pulava dentro da barriga não sei por quê!”. Giulia se envolveu tanto que não conseguiu parar depois de um ano em contato com aquelas crianças. Sua filha nasceu perfeitamente bem e com o tempo iria seguir os passos da mãe, já que hoje com 10 anos já faz Ballet e mostra grande paixão pela dança.
Fico curiosa para saber como ela dividia seu tempo, e ela conta que na maioria das vezes deixava a clínica de manhã para ficar como voluntária e depois corria pra lá entre um almoço rápido e um lanche, para trocar a Giulia bailarina pela Giulia fisioterapeuta, contando as horas para fazer aulas no final da tarde. “Era um absurdo quando eu atendia alguma bailarina com lesões. Quem dança sabe que isso é a morte para nós. Você deve saber não é?”
Agora sim Giulia havia me pegado de surpresa. Arregalo os olhos e abro um sorriso sem graça, ainda confusa. “Como sabe que sou bailarina!?”, Perguntei com a expressão mais deslavada do mundo, rindo. “Eu já te vi dançando! Menina, fiquei encantada com o espetáculo de vocês…”. A mesma expressão que ela fizera no começo agora era minha, eu estava surpresa por ela saber algo de mim, sendo que era a primeira vez que nos víamos e que eu não havia mencionado nada quando falamos pelo telefone. Falamos de dança por mais um tempo, até voltarmos para a entrevista.
Já estávamos tomando café e já passava de 13h30min quando ela conta a emoção que sentiu ao voltar aos palcos. Diz que foi quase a realização de um sonho, já que muitas abandonam depois da maternidade. Ela conta que não fechou a clínica em respeito ao pai, mas que houve vontade. Seus trabalhos como voluntária continuaram acontecendo duas vezes por semana, pela manhã, e suas aulas e ensaios à tarde.
“Eu era fisioterapeuta três vezes na semana. Coloquei algumas pessoas para trabalharem na clínica e elas ficavam à tarde enquanto eu dançava, a noite eu chegava em casa quase morta e ainda tinha tempo para minha filha que queria me contar como tinha se saído na escolinha e brincar de boneca ou de salão de beleza”, conta ela rindo saudosa e orgulhosa de falar da pequena Larissa.
E Giulia não parou por aí, dançava, ajudava crianças e era mãe por todo tempo que podia. Com o tempo foi se acostumando à nova rotina e ajeitando as coisas, como gosta de se definir. Calculava horários, planejava tudo e dava um jeito de fazer as coisas acontecerem, sem deixar de fazer absolutamente nada do que gostava.
Light.
Passamos para uma parte mais light da conversa e eu pergunto como é a Giulia fora dos palcos, fora da clínica e longe das crianças que ajuda. Ela diz que é calma, mais calma do que alguém com as responsabilidades dela deveria ser, mas que costuma ver a vida da forma mais fácil possível, não colocando as dificuldades como grandes problemas mas como pequeninos desafios que ela adora resolver. Revela também que é apaixonada por pintura, mas que não tem tempo para se dedicar e por isso se satisfaz apenas comprando.
“E se depois dessa caminhada toda você tivesse que olhar pra trás e escolher alguém, quem seria?” Após a pergunta ela fica em silêncio, mas logo sorri e responde firmemente: “Minha avó!”. Mais uma vez os olhos de Giulia brilham, talvez por saudade também, mas com certeza de orgulho primeiro. Ela se refere à avó como uma mulher tão guerreira como essas que vemos em livros e filmes e que gostaria de fazer tudo como ela fez. “Ela estaria orgulhosa de me ver fazendo mais de uma coisa, tenho certeza! E seria a bisavó mais babona do mundo…”, conta rindo, após mostrar uma foto que carrega da avó dentro da carteira. “Ah, minha avó era linda! Morro de saudades…”.
Sobre sonhos, pergunto se ela teria algum. Sim, ela tem! “E qual é?”, perguntei querendo saber que a avó estaria incluída neles. “Qual é o seu?”, pergunta ela me olhando firmemente. Talvez os papéis se invertessem naquele momento, onde eu me tornava a entrevistada. Respondi que teria que falar mais de um, pois era muita coisa. “Então acho que você me entende!”, diz Giulia rindo. “Eu não tenho só um sonho, eu tenho vários… Milhares!”. E realmente eram muitos e iam desde montar uma escola de dança com o nome da avó até um ingresso permanente na Organização das Nações Unidas (ONU) para ajudar muito mais gente. “A vida é engraçada, não é? No meu maior momento de desespero, eu encontrei a calmaria ajudando os outros… E olha que eu é que precisava de ajuda!”.
Giulia conta que aprendeu muita coisa com seus erros e que não se arrepende de tê-los cometido. A cada queda, ela aprendia a levantar sozinha e passar isso adiante, tendo uma forma de não guardar nada daquilo com ela. Fala que queria morrer quando teve que contar aos pais que estava grávida e que ver a expressão desapontada dos dois era algo muito difícil, mas que depois ao vê-los sorrindo com a neta no colo, tudo passou.
“Sabe aquele filme, Juno!? Pois é, tirando a parte da adoção eu fiquei com aquele mesmo desespero!”. Entre gargalhadas ela diz que teve medo de engordar, de ficar feia e de ser uma mãe chata, mas que tudo isso passou e que hoje ela não se vê sem Larissa.
Backstage.
Atualmente, Giulia dança menos e se dedica mais ficando nos bastidores. Ela diz que sabe quando o corpo não agüenta mais tanta pressão e que agora com 30 anos, as coisas começam a mudar. Está mais caseira também e seu trabalho voluntário começa a render frutos, depois de maravilhosos 10 anos e que agora nada mais pode detê-la, pois uma garota que vira mãe sem esperar e segue duas carreiras teria todo o direto de reclamar, mas que ela prefere não faze-lo.
Entre muitas outras coisas fala que sente orgulho do que é atualmente, mas sem tirar os pés do chão, encara cada dia como um desafio e uma oportunidade de crescer. Não descarta a possibilidade de entrar na ONU mesmo sabendo que é praticamente impossível e que ainda vai ficar sentada em uma cadeira confortável tomando chá enquanto assiste a filha dançar Ballet, brincar e quem sabe, seguir exatamente seus passos.
Ri, brinca, e se diverte dando a entrevista, fazendo tudo ter um ar mais calmo e amigável. Ah, e a postura de bailarina séria do começo da conversa? A essa altura, já não existe mais.
“Eu me lembro que sentei de frente pra janela e fiquei alí, quietinha, só lembrando dela e tentando entender o que estava acontecendo. Era uma dor enorme, as vezes ficava complicado demais respirar sabendo que ela são estava mais ali.” Parecia que o mundo ia diminuindo e eu parada, esperando acabar.“
“A vida é engraçada, não é? No meu maior momento de desespero, eu encontrei a calmaria ajudando os outros… E olha que eu é que precisava de ajuda!“
| E tem mais…
Giulia não é a única a viver algo que de início parece existir somente nos histórias de cinema. Muitas jovens se encontram perdidas quando descobrem uma gravidez na adolescência e vêem os sonhos indo por água a baixo, e a maioria acaba por desistir, afinal nem todas tem a sorte de estar em uma família que lhe dê total apoio e assistência como no caso de Giulia.
Atualmente existem Organizações não governamentais (ONG’s) e projetos par auxiliar jovens a como se prevenir e dar apoio a aquelas que encontram-se nessa situação. Todos os dias voluntários tentam reduzir esse número, mas ainda é algo totalmente utópico, por isso informe-se e seja um voluntário você também, ajudando assim a milhares de jovens que talvez precisem somente de algumas palavras para ter um futuro melhor. |
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